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Natal subversivo
- É possível que os leitores conheçam “organiza o Natal”, de Carlos Drummond de Andrade. Aí o poeta recorda que, a rigor, o ano se compõe de 10 meses, cabendo dois ao Natal. Mas logo conjectura a respeito da inversão dessas durações: “10 meses de Natal e dois meses de ano vulgarmente dito”. Ele sugere, então, que “o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas”. Mas o Natal não abarca, de fato, os dois meses indicados por Drummond. Nem os 10 que, na sua imaginação, desejou a seus semelhantes. O Natal é mais uma parada obrigatória no último terço de dezembro, inercialmente imposta pelo costume.
Outra exímia fazedora de versos, Cecília Meireles, notara, em “compras de Natal”, que é uma época em que as cidades e suas lojas se enfeitam, visando a “fugir à realidade do ano inteiro”. Sabendo que seus habitantes desejarão presentear parentes e amigos, as lojas tentarão seduzi-los “com fitas e flores, neve de algodão de vidro / fios de ouro e prata, cetins, luzes / todas as coisas que possam representar beleza e excelência”. E não parece que o Natal foi se tornando um período de bons negócios para o comércio, a produção, os transportes, os bancos – todos de olho no décimo terceiro dos consumidores.
Contudo, está nas mãos (e na cabeça) de cada ser humano (inclusive, do alheio à tradição cristã do Natal) subverter essa ordem “maligna e enfadonha”. São efêmeros, afinal, os cetins e as luzes e os presentes, restando (como verseja Cecília Meireles) “Durável – apenas o Meninozinho / nas suas palhas / a olhar para este mundo”.
Está nas mãos (e na cabeça) de cada ser humano encher sua vida de sentido. E estendê-lo para além da “parada obrigatória” de fins de dezembro. Um belo dia, quem sabe, alcançar-se-á o ano com 10 meses de Natal, como sonhou Drummond – período durante o qual, então, “nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente”.
Está nas mãos (e na cabeça) de cada ser humano subverter a ordem de egoísmo maligno e competição enfadonha. E radicalizar a entrega, a partilha, a solidariedade.
Feliz Natal!
fonte: http://www.clicrbs.com.br/jsc/sc/impressa/4,183,3605894,18626
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